Cidade de Pontalina se destaca entre os polos de moda íntima em Goiás

Cerca de 100 confecções produzem, em média, 1 milhão de peças por mês.
Lingeries do município chamaram a atenção da estilista Thaís Gusmão.

A cidade de Pontalina, a 114 quilômetros de Goiânia, desponta como um dos três polos de produção de moda íntima do estado, ao lado de Taquaral de Goiás, no centro-oeste, e Catalão, na região sul. De acordo com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), atualmente, cerca de 100 confecções sediadas na cidade produzem, juntas, uma média 1 milhão de peças por mês.

Além do próprio estado, as lingeries são comercializados em São Paulo, Distrito Federal, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Bahia e Pará. “O sul e o sudoeste goiano são muito fortes no agronegócio, mas a indústria de transformação ainda é iniciante. Como o ramo de vestuário requer baixo investimento e qualificação, esse tipo de atividade cresceu”, afirma o gerente Setorial de Indústria do Sebrae, Cláudio Laval.

E a atividade de micro e pequenas empresas no ramo da confecção tem levado riquezas para o município. Prova disso é que, de 2000 a 2010, a cidade triplicou o seu Produto Interno Bruto (PIB), passando de R$ 65 milhões para R$ 184 milhões. No mesmo período, a população local passou de 16,5 mil para 17,1 mil.

Segundo o Sebrae, parte da expansão se deve à atuação dos empresários pontalinenses em um Arranjo Produtivo Local (APL), caracterizado por uma aglomeração de indústrias localizadas em uma mesma área, nas quais os integrantes trocam experiências, vínculos de interação e cooperação. “Os empreendedores estão se articulando de forma eficiente e conseguindo resultados. É um grande avanço para a indústria goiana”, ressaltou o gerente.


Moda íntima

Helenês Marques, 23 anos, é um dos fabricantes de lingerie da cidade. Enfermeiro de formação, há três anos se mudou para São Paulo para trabalhar. “Meus pais continuaram em Pontalina e percebi que o ramo de vestuário dá mais retornos financeiros”, disse. Decidido a mudar de profissão, ele voltou para a cidade natal e investiu cerca de R$ 100 mil em máquinas e matéria-prima para montar sua própria confecção, em fevereiro deste ano. “Me preparei, aprendi a costurar e hoje sei como é todo o processo de montagem da lingerie”, explicou.

Atualmente, oito funcionários produzem por mês 4.500 peças, ricas em cores e detalhes. “As lingeries são vendidas em Mato Grosso, Pará, Brasília e Minas Gerais. Estamos no início, mas em breve queremos ampliar o leque de atuação e o fato de Pontalina ser considerada um polo de moda íntima ajuda”, destacou Marques.

A empresária Eva Santos e Silva, 50 anos, já colhe os frutos dos 23 anos de trabalho. Ela e o marido começaram no ramo costurando em casa, com apenas uma máquina, mas o negócio expandiu e hoje eles têm uma fábrica com 75 funcionários. “No início, vendíamos de porta em porta, como sacoleiros. Cerca de 10 anos depois de muito trabalho abrimos a nossa primeira loja na cidade. Agora, também temos outra unidade em Goiânia e vendemos calcinhas e sutiãs para diversos estados do país”, afirmou.

Segundo Eva, a contratação de mão de obra especializada é um dos principais desafios enfrentados ao longo dessa trajetória. “A demanda é grande e muitas vezes temos que pegar pessoas que estão iniciando no ramo da costura para treinar. Trabalho aqui não falta, basta a pessoa se capacitar”, ressaltou a empresária.

Logo no início dos trabalhos, Eva contratou a costureira Georgina Mônica, de 48 anos, e até hoje as duas atuam juntas. “Já estou com ela há 23 anos e ensinei muita gente na confecção”, lembra. Agora, a costureira quer montar o seu próprio negócio e garante que continuará no ramo de vestuário. “Sempre gostei de costurar e digo que se tivesse feito alguma faculdade seria a de Moda. Não me imagino fazendo outra coisa”, destacou Georgina.

A média salarial de uma costureira na cidade é de R$ 1.200, de acordo com o Sebrae.


Inspiração

As peças produzidas na cidade chamaram a atenção da estilista paulista Thaís Gusmão, 38 anos, que esteve na cidade no último fim de semana para ministrar uma palestra, na 13ª Feira de Indústria e Comércio de Pontalina (Feicomp). Segundo ela, que é especialista em moda íntima e já desenhou para marcas famosas, o material pontalinense é criativo e tem qualidade. “Essa é a primeira vez que estive na cidade, mas fiquei encantada com o que vi. O potencial dos produtos é enorme”, destacou.

A estilista, que além de lojas próprias em São Paulo começa a desenvolver um processo de expansão pelo país por meio de franquias, deu dicas às confeccionistas locais de como valorizar ainda mais cada peça. “Gosto muito de trabalhar com cores e estampas e as lingeries de Pontalina seguem essa linha. O que tentei passar para elas é que, às vezes, a inspiração para a criação pode partir de coisas simples, como as situações do dia a dia”, explicou.

Thaís pretende fechar uma parceria com o Sebrae para desenvolver uma coleção com os produtores de Pontalina. “Acho que o que falta na cidade é um pouco mais de orientação para evitar desperdícios na produção das peças. Por isso, quero realizar o projeto no município no ano que vem e os benefícios serão mútuos, pois passarei meus conhecimentos a eles e receberei novas inspirações em troca”, ressaltou.


Trabalho em família

Proprietários de uma das maiores confecções de Pontalina, o casal Rosemeire Alves Costa e Juvenil Sebastião Dornelas trabalha com moda íntima há 13 anos. Antes de montar a indústria de lingerie, ela vendia produtos diversos em uma feira hippie de Goiânia. Aos poucos, migrou para o vestuário. “Decidimos investir no ramo e passamos a produzir e vender cuecas para lojistas de Brasília. Como a mão de obra era bem escassa, e eu sou pontalinense, decidi voltar para a cidade, onde a prefeitura disponibilizava um curso de profissionalização”, lembra a empresária.

Em 2009, eles conseguiram abrir a primeira loja na cidade e a produção, que varia do tamanho 40 ao 58, precisou aumentar. “Hoje, vendemos nossa lingerie em várias regiões do país, por meio de representantes, e aí investimos na expansão da fábrica. Temos uma produção de 250 mil peças por mês”, explicou Rosemeire. Cada conjunto de lingerie custa, em média, R$ 15.

Além da confecção em Pontalina, com 270 funcionários, eles possuem outra unidade em Catalão, com mais 45 costureiros. No ano passado, o casal investiu cerca de R$ 1 milhão na aquisição de um equipamento, que permite o corte preciso dos tecidos e evita desperdícios. “Agora, se precisarmos, temos a capacidade de produzir até 50 mil peças por dia”, estimou Juvenil.

Inspirada no sucesso dos pais, uma das filhas do casal, Mayara Fernandes Dornelas, 24 anos, lançou a sua própria marca de lingerie para o público infantil no final do ano passado. “Esse ramo ainda é escasso no país e muita gente pedia para a gente. Como eu já trabalhava com eles, vi que esse era uma boa opção para investir e continuar o negócio da família”, conta.

Formada em Direito, ela optou em focar a carreira na administração da fábrica e na criação da linha para crianças de dois a 14 anos. “Minhas peças são muito coloridas e tenho uma preocupação com os tipos de materiais que não irritam a pele. Além disso, uso um tecido ecologicamente correto chamado modal, feito a partir da fibra de bambu. Tudo isso é importante para a aceitação das peças no mercado”, destaca Mayara.

O preço dos conjuntos infantis é de R$ 14,90. Atualmente, a jovem empresária tem uma produção de 750 conjuntos por dia. “A minha marca ainda é nova, mas tudo o que fazemos é vendido. A expectativa é de que, dentro de três anos, possamos estar entre os líderes do segmento infantil”, afirma.

Fonte: G1 GO, em Pontalina (GO)

Outras notícias